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Contos de Fadas

Olá, pessoas!

Esta semana eu resolvi mudar um pouco. Por isso, em vez de ver um texto antigo, resolvi que vou postar para vocês um texto dos meus mais recentes, na temática de Fantasia/Contos de Fadas.
O que eu escrevi foi, digamos, uma "continuação" de uma história já conhecida de vocês: Chapeuzinho Vermelho. Esta releitura/continuação foi inspirada pelo autor Pedro Bandeira, com seu livro "O Fantástico Mistério de Feiurinha" (aliás, para quem não leu, saibam que é um ótimo livro, bem melhor do que o filme que fizeram). No livro, Chapeuzinho Vermelho já é uma trintona que não consegue arranjar um marido/namorado por culpa do narrador da história, que disse que ela e a avó viveriam felizes para sempre. Como não existe príncipe na história, a pobre Chapeuzinho virou uma solteirona.
A história é também um passeio por todos os contos de fada. Alguns que talvez não sejam muito conhecidos, outros saídos de poesias curtas, mas todos muito especiais.

Enfim, por isso eu resolvi brincar com a ideia e, por conta disso, escrevi a história a seguir. Com vocês:



Nem todas as fadas contam contos
Bruno Leandro

E
  ra uma vez um “viveram felizes para sempre” que não durou tanto tempo assim.
Esquecida pelo contador de histórias e condenada a cuidar para sempre de uma avó que estava ficando cada vez mais senil sem a ajuda de sua mãe irresponsável, que só aparecia cedo ou tarde demais, Chapeuzinho Vermelho se cansou e, determinada a quebrar o efeito Peter Pan, entrou na Floresta Negra, logo atrás da casa do porquinho sobrevivente. Lá buscou a Fada Azul, que havia comprado uma casa feita de doces quando a dona anterior sumira misteriosamente...
Havia se perdido, fugindo de um sapo que queria beijá-la a todo custo. Tinha aprendido por experiência própria que animais falantes costumam ser causa de muita dor de cabeça e não queria mais uma de jeito nenhum. Aliás, quase tinha entrado em outra casa por engano. Por sorte, uma menina loira havia saído correndo poucos segundos antes e gritado ursos, em vez de lobos. Talvez eles tivessem invadido a casa, vai saber. Ela ia passar o telefone do lenhador, mas a outra menina já tinha sumido na estrada... Um tempo depois, encontrou uma caverna de onde saíram alguns anões gentis que a ajudaram a encontrar o caminho. Um deles era meio rabugento, mas parecia ter um bom coração.
Chegando ao local indicado, a menina se espantou: em vez de uma casa de doces, havia uma torre feita de doces, sem porta, escada ou castelo, e, no alto dela, a Fada Azul, olhando pro horizonte pela janela. A altura era muito grande, por isso, não importando o quanto a menina gritasse, a fada nada conseguia ouvir. Lembrando-se que tinha feito uma visita a seu amigo João na semana anterior, Chapeuzinho pegou alguns feijões que tinha ganhado deste e colocou no solo, se escondendo atrás da torre enquanto os feijões alcançavam as nuvens.
A Fada Azul, que estava distraída sonhando com baleias e bonecos de madeira feitos por relojoeiros, tomou um tremendo susto ao ver aquele pé de feijão enorme surgindo à sua frente. Mais ainda, quando viu uma menininha vestida de vermelho fazendo de tudo pra chegar à sua janela. Quando a garota finalmente pulou para dentro, a fada ficou sem palavras.
Já dentro da torre (que cheirava a pão de mel recém-assado e tinha paredes fofas), a garotinha se espantou com a aparência da fada, que tinha um cabelo azul tão grande e pesado que com certeza teria partido o pescoço de uma pessoa normal. Quando perguntou pra fada e ela disse que era a última moda, Chapeuzinho pensou que aquilo era a última moda na época em que as princesas ainda furavam os dedos em rocas e dormiam a sono solto – e roncando alto, ainda por cima. Claro que a garota não era doida de falar nada e preferiu concordar. Era melhor não contrariar.
Assim que a menina terminou de contar seu caso, a fada concordou em ajudar. Disse que, para isso, a garota teria que pegar a espuma de uma sereia e o pólen de uma flor de Tumbelinas. Além disso, a menina também precisaria de pó de fada do campo. A garota ficou emburrada, porque para outros tinha sido muito mais fácil. E ela se comportava tão bem! A fada só fez lembrar que boas meninas não falam com desconhecidos e não desviam dos caminhos que seus pais mandaram, calando, com isso, a menina, que começou a descida pelo pé de feijão.
Depois que a menina foi embora, a Fada Azul resolveu sonhar com bonecos de gengibre feitos por padeiros.
Ao voltar ao chão, Chapeuzinho deu um suspiro de alívio e seguiu em frente sem derrubar o pé de feijão, pois iria precisar dele quando voltasse.
Ao pé do feijão, a menina chamou um táxi-charrete e foi até o cais, esperando pegar uma carona com Simbad até topar com alguma sereia que lhe ajudasse com o primeiro problema. Como o marujo estava de bom humor, eles começaram a navegar na direção do Triângulo da Bermudas, onde havia muitos naufrágios e algumas sereias ajudam os humanos a sobreviverem. O lugar era meio deserto, só faltava a areia e uma lâmpada mágica para a garota se sentir na última das mil e uma noites. Bom, faltava o marido violento também, mas, no desespero em que se encontrava, até isso era bem-vindo. Bem, na verdade não...
Chegando ao local, descobriu que ele não era exatamente tão vazio quanto imaginava. Havia todo tipo de gente ali! Os contos de fada do oriente adoravam viajar em navios estranhos e tinham conhecido quase todas as terras. Quase todas, já que tinham encalhado ali, no fim das contas...
O caminho era traiçoeiro, mas Sinbad era experiente e conseguiu seguir pelos recifes sem ir a pique. Tiveram uma briga com um pirata de Barba Azul pelo meio da passagem, mas nada de mais, já que o pirata foi engolido por um crocodilo que fazia um barulho engraçado, algo assim de relógio. Aos poucos chegaram ao fundo da ilha, onde as belas sereias se escondiam dos olhos dos homens, com medo de encantá-los com sua beleza e fazê-los se afogar por as seguirem. Chapeuzinho não tinha problemas com isso, pois era uma garota que não gostava muito de peixes.
Depois de uma rápida conversa, conseguindo o que queria, a menina saiu triste, pois descobriu que uma sereia só produz espuma quando morre. A irmã mais nova daquelas sereias havia se apaixonado por um homem que não a quis e, como conseqüência, morrido por não ter o seu amor. Era uma história triste, que nunca deveria acontecer com ninguém.
De volta ao porto, Chapeuzinho foi aos campos, buscando as fadas e as Tumbelinas. Acenou de longe para sua amiga Mary, mas evitou sua companhia. Mary era muito fofoqueira e adorava falar mal da vida dos outros. Por isso o pessoal a evitava e ela ficava só com seu cordeirinho. Uma vez Mary contou pra todo mundo sobre uma princesa que tinha vindo de família humilde e que só usava trapos pra se vestir antes de dar o golpe do baú em um príncipe, o fazendo acreditar que ela era rica, só porque usava sapatinhos de cristal – um absurdo! – disse Mary. Pra evitar esse tipo de mexerico, Chapeuzinho preferia passar longe.
A busca pelas Tumbelinas foi fácil, já que havia várias flores-leito espalhadas pelo campo. A garota logo encontrou uma colônia, perto de um lago onde alguns patos pareciam debochar do menor e não tão bonito dentre eles. Na colônia demorou um pouquinho para convencer o grupo a lhe dar o pólen, pois envolvia a destruição da casa de um deles. Mas, com a promessa bem política de plantar três no lugar, conseguiu que cedessem.
As fadas do campo não estavam em casa. Um bilhete com algo sobre uma convenção no Caribe, ou coisa assim... por sorte, elas tinham deixado pó o suficiente para ajudar na primavera... a garota deixou um bilhete avisando que iria pegar uma xicrinha emprestada e devolveria quando pudesse (ou seja, nunca). Com todos os ingredientes em mãos, só faltava voltar.
A volta foi bem tranqüila. A menina esbarrou em um Garotinho dorminhoco que era todo Azul, e ele começou a chorar sem parar e resolveu persegui-la. Como Chapeuzinho era mais rápida, acabou deixando-o pra trás. O garoto então voltou pra o seu lugar e continuou a chorar.
Chapeuzinho já estava ficando louca de tanto conto esquisito que encontrava. Alguns sem pé nem cabeça e outros realmente sem pé ou cabeça. Mas, como seu desafio estava próximo do fim, relaxou e seguiu em frente. O passeio, no fim das contas, tinha sido interessante mesmo...
Finalmente a menina chegou ao pé da torre e tocou a subir o feijoeiro., se perguntando se era demais um elevadorzinho ali. Quando alcançou a janela, encontrou a fada exatamente como a tinha deixado, olhando perdida para o horizonte como se o amanhã não existisse. Ela entregou os objetos de sua busca e esperou a magia acontecer.
Quando a fada misturou todos os ingredientes que Chapeuzinho Vermelho lhe deu no liquidificador, a garota começou a ficar com nojo, pensando se teria que beber aquela mistura de elementos tão estranhos. Por sorte, a fada jogou ao vento e disse algumas palavras mágicas que a menina não ouviu muito bem, mas pensou que tivesse algo a ver com “trazer o verdadeiro amor”, ou algo assim. A mistura, voando mais rápido que a velocidade do pensamento, correu o mundo e voltou o mais rápido que pôde. E então, ao voltar, trouxe alguma coisa consigo. Ou melhor: alguém.
Chapeuzinho descobriu, então, que havia um príncipe para ela.
A garota olhou para o príncipe, fascinada pela sua beleza. Ele a olhou de volta e estendeu a mão para tocar em seu rosto.
Assim que o príncipe a tocou, a magia aconteceu e seu manto e capuz derreteram, escorrendo vermelhos no solo. Ela, enfim, se via uma adulta, livre do feitiço do tempo.
Como tem que acontecer em todos os contos de fada, Chapeuzinho, que não era mais Chapeuzinho, casou-se com seu príncipe. A cerimônia foi linda e todos se emocionaram. Todo o reino do Faz de Conta tinha ido ver o desencalhe da garota que finalmente tinha crescido.
Após a cerimônia e duas semanas de lua de mel depois, finalmente os pombinhos foram morar no castelo. A mãe da garota se mudou com eles, mas acabou não dando muito certo, pois era uma sogra muito chata, mesmo sem ter sido uma boa mãe. Ela acabou viajando para conhecer o mundo, auxiliada por uma gorda pensão que sua filha passou a lhe dar. Quanto à avó, preferiu continuar na sua cabaninha e, como não conseguia mais fazer quase nada sozinha, contrataram uma cuidadora para lhe ajudar. Depois de um tempo casados, a Princesa e seu Príncipe começaram a ter filhos e fizeram uma família grande. A Princesa nunca mais usou vermelho na vida. Tudo era bom para todos no reino do Faz de Conta...
... E todos viveram felizes pelo tempo que foi possível.

FIM







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