Pular para o conteúdo principal

Quando Chove

Confesso que detesto chuva, que sinto depressão e que não acho andar ou dançar na chuva a coisa mais maravilhosa do mundo. Porém, sem que nos demos conta, às vezes precisamos dela...


A Chuva
Bruno Leandro

O céu despeja suas lágrimas sobre mim. Quanto tempo faz? Eu já quase me esqueci de quem sou. Não, isso não é verdade. Eu sei quem sou. Eu esqueci foi de quem eu deveria ser.
A chuva leva embora meus pensamentos e minhas memórias. Ela lava todas as minhas virtudes e todos os meus pecados, me tornando uma tabula rasa. Estou pronto para que se escreva novamente sobre mim. Minha história é passado e vivo só para o futuro.
Ontem? Já passou. Aliás, o ontem sequer existiu. Eu sei apenas do que virá. Aliás, não sei, mas a incerteza guarda algo de belo em mim.
Chove fora e dentro de mim. Chove de dentro para fora e de fora para dentro. Me renovo de novo. Minha identidade é apagada, meu desejos, fantasias, realidades e falsidades. Quem sou eu? Quem eu fui? Quem serei? Nada disso importa, o que importa é apenas o momento.
A água dança ao meu redor. É bela, pura, inocente, feliz. Parece meu estado de espírito. Já fui o oposto. Já tive sua violência, seus trovões, suas rajadas de vento que entram violentamente como a tempestade e não se recolhem de forma alguma. Já fui uma torrente de emoções e um turbilhão de sentimentos. Hoje sou uma leve garoa que escorre lentamente e que não altera, antes se adapta a, o mundo ao redor.
Continuo a não lembrar, e o esquecimento era uma bênção. Queria que ainda fosse. Queria me esquecer da minha própria pessoa e apenas me deixar levar, me deixar levar, me deixar levar... infinitamente sem rumo, sem objetivos, sem ter que ir para lugar nenhum. Sem dever nada a ser algum.
As águas se espalham, os pingos ficam um pouco mais grossos e o mundo perde sua nitidez. As cores do ambiente se espalham em um borrão. Tudo perde seu contorno e as pessoas perdem suas formas. Os limites ficam indefinidos e meus sentidos ficam confusos, com minha visão turva e a natureza embaçada.
Sinto que a chuva me chama. É difícil resistir, mas sei que não é chegada a hora. Ainda não é o momento de me entregar às suas águas. Não posso ainda flutuar com suas gotas, pois ainda não é chegada a hora de ser totalmente livre. Sei que me libertei do passado, mas ainda há um futuro o qual preciso encontrar.
Talvez um dia, no fim de tudo, eu possa ceder. Mas não agora. Agora é hora de deixar a chuva passar, de liberá-la, de libertá-la. É hora de deixá-la ir. É hora de entrar e ver a chuva partir...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Como melhorar na escrita?

(You should work, work, work, work, work.) Escrever sobre escrever, por mais que pareça bobo, é algo que me anima. E digo isso pelo simples fato de que eu relaxo ao poder colocar minhas dúvidas e anseios fora da minha própria mente. Este espaço não se pretende nada mais do que um lugar de questionamentos e desabafos, sem respostas prontas e sem obrigatoriedade de respostas ao final da postagem. E, por conta disso, o assunto que eu quero abordar hoje é como melhorar na escrita. Escrever é algo difícil, mesmo para quem tem rompantes criativos, um português impecável e nasceu com um tablet na mão. Apesar de ser criativo e ter um nível muito bom de português, estou longe de ser perfeito e podem ter certeza de que não nasci com nenhum aplicativo de escrita a meu alcance. Sou da época (na minha época…) em que a internet estava começando. Eu posso, inclusive, dizer que cresci junto com ela, que nos desenvolvemos juntos e fomos aprendendo a lidar um com o outro. A tecnologia também evol...

O Artesão das Imagens e Palavras

Hoje resolvi ambientar minha história em um mundo de fantasia que ainda irei criar. Como assim? Bem, este texto é sobre um ser que criei há algum tempo e que dá título ao conto de hoje. Aliás, é errado dizer que escrevi um conto, o que fiz foi apresentar este personagem e pedir a ele que falasse brevemente sobre sua história. Então, em vez de "conto", vamos dizer que meu personagem escreveu uma espécie de mini-autobiografia. Um pequena observação: esta não é a primeira aparição do personagem no blog, ele pode ser visto aqui e a cidade de Leandor também já existe, mas não um mundo onde eu possa colocá-la, ainda. Quem sabe eu a coloque em algum mundo já criado? Bom, ainda vou decidir isso. Questão de tempo. Por enquanto, fiquem com a biografia de: O Artesão das Imagens e Palavras. Bruno Leandro Não me tornei o Artesão das Imagens e Palavras à toa. Eu o fiz porque tinha um sonho. E um dom. Eu o fiz porque tive quem acreditasse em meu sonho. E em meu dom. Nasc...

Catadora de Latinhas

A história de hoje é parte real, parte inventada, parte devaneio. É real, porque já cansei de ver catadores de lata, papelão, lixo, etc. por aí. Também é real porque parte dela aconteceu com um amigo, mas o catador era homem. É inventada porque eu nunca passei pela situação que escrevi, mas por coisas parecidas. É devaneio porque tais situações me fazem pensar sobre muitas coisas. Espero que gostem da história e que ela também os faça refletir. A Moça das Latinhas Bruno Leandro Ipanema, fim de tarde, já quase noite. Os belos corpos já se levantaram da areia e os poucos que ainda restam, já não tão belos, admiram o mar. Cena de cinema. Mas algo destoa de tão linda cena: uma moça, já senhora, que vejo recolher latinhas na orla. Ela está aqui, ali, lá e acolá, passa e vem de um lugar ao outro, recolhendo o alumínio que os outros descartam. Não olho muito, pois nada tenho a ver com sua vida. Logo me aborreço de ficar parado e ando, sem rumo e sem destino. De repente, uma voz me para. ...