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Catadora de Latinhas

A história de hoje é parte real, parte inventada, parte devaneio. É real, porque já cansei de ver catadores de lata, papelão, lixo, etc. por aí. Também é real porque parte dela aconteceu com um amigo, mas o catador era homem. É inventada porque eu nunca passei pela situação que escrevi, mas por coisas parecidas. É devaneio porque tais situações me fazem pensar sobre muitas coisas.
Espero que gostem da história e que ela também os faça refletir.


A Moça das Latinhas
Bruno Leandro

Ipanema, fim de tarde, já quase noite. Os belos corpos já se levantaram da areia e os poucos que ainda restam, já não tão belos, admiram o mar. Cena de cinema.
Mas algo destoa de tão linda cena: uma moça, já senhora, que vejo recolher latinhas na orla. Ela está aqui, ali, lá e acolá, passa e vem de um lugar ao outro, recolhendo o alumínio que os outros descartam.
Não olho muito, pois nada tenho a ver com sua vida. Logo me aborreço de ficar parado e ando, sem rumo e sem destino.
De repente, uma voz me para. Não, não é um assalto, é a “moça das latinhas” que chega perto e pergunta:
“Moço, tem dinheiro?”.  – Quase tenho vontade de rir. Eu, estudante e desempregado com dinheiro? Quem me dera. A praia é de graça, por isso estou ali.
“Infelizmente, não tenho.” – respondo, quase me pondo a caminho. Sem sucesso, já que ela me interpela de novo:
“Mas tem latinha?” – ela pergunta, saco em mãos e um sorriso meio desdentado, mas esperançoso por completo. Latinha eu tenho, de refrigerante, porque não bebo álcool. Como já ia jogar fora, dou-lhe a latinha. E tento seguir. Ela me interpela de novo:
“Mas não tem nenhum dinheirinho, aí, não? Uma moedinha que seja?”
Já meio injuriado, conto as moedas do bolso. Só dá o da passagem e olhe lá! Acho que me sobram cinquenta centavos, quando muito, que ela olha, desejosa.
Estou prestes a dizer que não dá, que não posso lhe ceder meu troco, quando ela fala:
“Se eu contar uma história, o senhor me dá esse trocado?” – barganha. Acho graça de novo. Ela, mais velha do que eu, me chamando de senhor, com toda a subserviência que não deveria ter. Quase digo que não, mas acabo cedendo. Penso em dar as moedas de qualquer jeito e seguir meu rumo, mas a curiosidade é mais forte neste momento quase mágico de início de noite à beira de uma das mais belas praias do Rio. Eu a escuto.
Ela me conta de sua vida simples e sofrida, de como chegou ao Rio fugida da seca do Nordeste em busca do sonho de ganhar dinheiro. Conta de como juntou tudo o que tinha e o que não tinha para pagar pela viagem que iria lhe abrir as portas. Ouço calado, ainda admirado da ingenuidade dos que ainda hoje acham que cidade grande é terra prometida, terra mágica de oportunidades infinitas.
Ela fala de como tentou trabalhar em casa de família, fazer o que fosse. E me conta de sua má sorte, que a empurrou para a favela, onde morre de fome um pouquinho a cada dia e sobrevive com o que ganha catando latinhas. Dá, também, graças a Deus por não ter tido homem ou filhos que lhe compartilhassem a miséria. É sozinha, com a graça de Deus.
Fico com pena. Não que possa fazer por ela o que não posso fazer por mim, mas me dá pena ver uma pessoa privada do mínimo. Choraria se já não estivesse tão comum ver cenas como a dela por aí. Sua história não é nenhuma novidade. Ela não é a primeira e nem será a última e até sabe disso, mas vive com a pouca dignidade que consegue reunir. Não é uma história boa nem uma boa história, mas é uma história verdadeira.
A moça das latinhas me ganha. Eu dou a ela os merecidos centavos e volto a me preocupar com meu mundo de novo. Um mundo onde a vida é um pouco mais fácil e bem menos dura. Ela vai embora. Eu pergunto, antes que parta: “Qual é seu nome?”.
“Esperança” – ela me responde, se afastando. Eu fico ali, com a ironia de seu destino de ter um nome que talvez seja a única coisa que a faça sobreviver ao desespero de sina tão cruel.
Fecha a noite, não há mais corpos belos e a praia já não é mais tão convidativa. Retorno a casa e saio daquele pedaço de paraíso que chamam Ipanema.
Esperança, quem diria?

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