Pular para o conteúdo principal

Mais uma de minhas divagações

De vez em quando eu divago. aliás, de vez em sempre. Isso não é nada difícil para mim. Eis mais um dos resultados de minhas divagações:


Acordado
Bruno Leandro

Abriu um olho. Era quase dia. A noite havia passado como se não tivesse. Havia havido noite? Sono? Não sentira. Fechara os olhos por um instante e acordara. Mas, quando dormira? Por que o sol estava do lado errado do horizonte, se estava no poente há menos de um segundo?
Curioso, olhou para o relógio. Parado. Não, espera, se movia. Mas como as horas eram exatamente as mesmas?
Será que sonhava que havia acordado? Será que sonhava que havia dormido?
Tentou abrir os olhos. Conseguiu. Então, devia estar acordado e não havia dormido, certo? Certo. Errado! Se não houvesse dormido, o sol ainda estaria do lado correto. O que fazer para resolver o dilema?
Checou o hálito. O mesmo sabor da barra de chocolate, ainda meio mordida sobre a mesa e sem formigas ou moscas por cima. Seu hálito não amargava, ainda sentia sabor de doce na boca. Mais um mistério.
E os olhos? Deles não saía areia ou lágrima ressecadas, não saía nada, e estavam olhos espertos, despertos. Não se lhes havia embaço ou sonolência e prosseguia o enigma.
As roupas não estavam amassadas. Não mais que o normal, pelo menos. Nem a roupa, nem a face. Mexeu em tudo e nada estava fora do lugar. Apenas ele.
Fechou os olhos, abriu de novo e fez-se a luz. Desde quando a esquerda havia sido a direita e vice-versa? Quando foi que o “para cima” havia virado para baixo pela última vez? Por que tudo estava fora do lugar e somente ele não havia saído do lugar?
Deu meia-volta na cadeira. O dia virava noite finalmente ou outra vez. O nascente estava no poente e o que acordava, na verdade dormia.
Girou a cadeira mais uma vez, “desgirou” novamente. Tudo, afinal, fazia sentido.

Comentários

  1. Ótimo texto! Você é muito talentoso. Bruno Furtado.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu mesmo, Bruno!
      Espero que goste do espaço e volte sempre.
      Abraços!

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O Artesão das Imagens e Palavras

Hoje resolvi ambientar minha história em um mundo de fantasia que ainda irei criar. Como assim? Bem, este texto é sobre um ser que criei há algum tempo e que dá título ao conto de hoje. Aliás, é errado dizer que escrevi um conto, o que fiz foi apresentar este personagem e pedir a ele que falasse brevemente sobre sua história. Então, em vez de "conto", vamos dizer que meu personagem escreveu uma espécie de mini-autobiografia. Um pequena observação: esta não é a primeira aparição do personagem no blog, ele pode ser visto aqui e a cidade de Leandor também já existe, mas não um mundo onde eu possa colocá-la, ainda. Quem sabe eu a coloque em algum mundo já criado? Bom, ainda vou decidir isso. Questão de tempo. Por enquanto, fiquem com a biografia de: O Artesão das Imagens e Palavras. Bruno Leandro Não me tornei o Artesão das Imagens e Palavras à toa. Eu o fiz porque tinha um sonho. E um dom. Eu o fiz porque tive quem acreditasse em meu sonho. E em meu dom. Nasc...

Como melhorar na escrita?

(You should work, work, work, work, work.) Escrever sobre escrever, por mais que pareça bobo, é algo que me anima. E digo isso pelo simples fato de que eu relaxo ao poder colocar minhas dúvidas e anseios fora da minha própria mente. Este espaço não se pretende nada mais do que um lugar de questionamentos e desabafos, sem respostas prontas e sem obrigatoriedade de respostas ao final da postagem. E, por conta disso, o assunto que eu quero abordar hoje é como melhorar na escrita. Escrever é algo difícil, mesmo para quem tem rompantes criativos, um português impecável e nasceu com um tablet na mão. Apesar de ser criativo e ter um nível muito bom de português, estou longe de ser perfeito e podem ter certeza de que não nasci com nenhum aplicativo de escrita a meu alcance. Sou da época (na minha época…) em que a internet estava começando. Eu posso, inclusive, dizer que cresci junto com ela, que nos desenvolvemos juntos e fomos aprendendo a lidar um com o outro. A tecnologia também evol...

Catadora de Latinhas

A história de hoje é parte real, parte inventada, parte devaneio. É real, porque já cansei de ver catadores de lata, papelão, lixo, etc. por aí. Também é real porque parte dela aconteceu com um amigo, mas o catador era homem. É inventada porque eu nunca passei pela situação que escrevi, mas por coisas parecidas. É devaneio porque tais situações me fazem pensar sobre muitas coisas. Espero que gostem da história e que ela também os faça refletir. A Moça das Latinhas Bruno Leandro Ipanema, fim de tarde, já quase noite. Os belos corpos já se levantaram da areia e os poucos que ainda restam, já não tão belos, admiram o mar. Cena de cinema. Mas algo destoa de tão linda cena: uma moça, já senhora, que vejo recolher latinhas na orla. Ela está aqui, ali, lá e acolá, passa e vem de um lugar ao outro, recolhendo o alumínio que os outros descartam. Não olho muito, pois nada tenho a ver com sua vida. Logo me aborreço de ficar parado e ando, sem rumo e sem destino. De repente, uma voz me para. ...