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Sacrifício Terapêutico

O texto de hoje nasce de uma antiga revolta minha em relação a como as pessoas tratam seus animais. Para quem não conhece o significado, eutanásia é o termo utilizado para quando os aparelhos de suporte de vida de alguém são desligados, geralmente porque essa pessoa teve morte cerebral e não vai retornar à vida (quando o cérebro morre, não há retorno). Tá, mas o que isso tem a ver com a minha revolta? Leiam meu texto a seguir:

A Eutanásia Terapêutica
Bruno Leandro

Sei que o termo parece estranho, já que não há como eutanásia ser terapêutica, mas a verdade é que não estou para falar de seres humanos, apesar do título. Este texto é sobre animais. Sim, animais. É verdade que reservamos o termo “eutanásia” para o desligamento de aparelhos de seres humanos que sobrevivem (subvivem) ligados a suportes vitais. É também verdade que, quando falamos de animais doentes, utilizamos um outro termo, mais pesado: sacrifício. Mas o que seria o sacrifício de animais, se não uma “eutanásia terapêutica”?
É comum, quando um animal está muito doente, que ele seja sacrificado para “não sofrer”. O mesmo ato, aliás, foi e ainda é muito utilizado quando animais de grande porte, como cavalos, bois, burros, entre outros, que quebram suas patas, são mortos, pois dizem que esses animais nunca vão recuperar seus movimentos e que o membro inútil só lhes trará dor. Quanto aos animais domésticos, quando eles têm alguma doença incurável, que certamente os fará morrer, costuma-se utilizar esse “recurso” para que não sofram até o fim. É aqui que entra minha revolta.
Eu me pergunto: acaso alguém sabe se esses animais sacrificados realmente querem morrer? Por um acaso alguém perguntou se eles não prefeririam, mesmo que com dor, viver até seus últimos dias aproveitando o que lhes resta de vida? Será mesmo que uma mísera pata quebrada seja o suficiente para matar um ser desses?
Fico pensando na cena: um homem anda com sua esposa pela rua, quando um dos dois escorrega na calçada e quebra o braço. Essa pessoa fica ali, na rua, sofrendo e morrendo de dor pelo membro quebrado. O outro cônjuge, ao ver aquilo, e muito choroso, tira um revólver da cintura, aponta para a cabeça do primeiro e atira, eliminado sua vida, mas também acabando com a dor. Simples, não? Resolve o problema e não há mais sofrimento. Já pensaram se fizéssemos sempre assim? Acho que não sobrariam muitas pessoas no mundo.
Outro exemplo: uma tia, muito querida, está com cistos, mas acaba descobrindo que não são cistos, mas um câncer maligno, que não tem cura por meios normais. A família, então, resolve levá-la a um médico que irá lhe dar uma injeçãozinha para “dormir”. Depois disso, eles enterram o corpo e, pronto, acabou o sofrimento, em um passe de mágica! Fácil, não? Inconcebível, isso sim! – qualquer um me diria. E eu concordo, é realmente inconcebível acabar com uma vida, seja ela qual for.
Agora, pensemos nos animais: pata quebrada? Um tiro na cabeça resolve. Doença terminal? Nada que uma injeçãozinha não resolva. Ou seja, é como se fosse uma “eutanásia terapêutica”, só que, se pensarmos bem, por um acaso alguém perguntou ao animal o que ele preferiria? Ah, mas animal não pensa, não tem como dizer nada – diriam alguns. Não pensa? Será mesmo?
Nosso problema de seres humanos é achar que apenas nós pensamos, sentimos dor ou nos comunicamos. Essa cultura de achar que os animais existem apenas para nos servirem me incomoda profundamente. É o mesmo que descartar um brinquedo velho porque já não me serve mais. O animal não é sacrificado para não sofrer, ele é sacrificado porque eu não quero ver sua dor ou, pior, porque não quero pagar um tratamento decente para curá-lo. Afinal, já que é “só um animal”, qualquer coisa eu arranjo outro, não é mesmo? Mas se fosse uma mãe, um pai, um filho, ou outra pessoa querida, será que alguém faria isso? Dificilmente, afinal é uma vida humana e humanos pensam, sentem dor, se comunicam, não é verdade?
Esta foi minha reflexão e estes foram meus pensamentos. Não acho que se deva “sacrificar” um animal apenas porque você não aguenta olhar para ele. Duvido que, mesmo com a pior da dores a maioria dos seres humanos não lutaria ao máximo para sobreviver. Por que com um animal isso deveria ser diferente? Será que o direito à vida não é para todos? Eu penso que sim. E você?

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