Pular para o conteúdo principal

Devaneios de uma mente já idosa

Sim, às vezes eu divago, como se outra pessoa fosse e vou para um mundo que não reconheço como meu...
Neste texto, não sou eu, o Bruno Leandro, mas uma outra pessoa quem fala. Se suas palavras não possuem sempre sentido, perdoem-no. Não pela idade, mas pelo que já viveu e pela saudade dos tempos idos...


Divagações
Bruno Leandro

É um dia de verão tão quente que derrete os ossos dos animais largados na sarjeta.  O lixo apodrece nas calçadas onde os homens os haviam jogado. O cheiro do azedo se espalha pelo ar mais rápido do que qualquer um seja capaz de fugir. No meio daquilo tudo, um homem.
Não era baixo, mas não era alto. Não era bonito nem feio. Magro, não era, mas estava longe de ser gordo. Não tinha músculos, mas não se podia dizer que era fraco. Não tinha aparência de inteligente, mas não acho que fosse burro. Era, enfim, mediano. Acho que era o homem mais mediano que já se teria visto.
Não cheguei a reparar se era negro, branco, vermelho ou amarelo. Era brasileiro, isso eu sei. Caminhava apressado pela orla da praia, como se estivesse atrasado, ou como se estivesse fugindo de algo. Da polícia eu sei que não era, pois nenhum deles o parou quando passou por seu carro. Talvez fosse apenas pressa...
Aquilo me lembra de mim mesmo e começo a divagar. Lembro que eu costumava correr com aquela mesma pressa, atrasado para os encontros ou para o trabalho, nunca para os estudos. Lembro que ninguém reparava muito em mim, todos corriam como eu.  Percebo que o lixo não melhorou o cheiro nos últimos anos, nem as pessoas melhoraram sua educação. E também percebo que os animais continuam abandonados à própria sorte, uma sorte cruel que o ser humano não sabe como nem deseja mudar. E pensar que já fui como eles...
Hoje sou diferente, hoje tudo é diferente para mim. A vida muda quando você amadurece. Pena que só amadurecemos tarde demais...
É, a idade me pegou e eu agora olho para trás com saudade da minha juventude, mas sem saudade da pessoa que eu era. Aliás, me envergonho de ter sido mais um como todo mundo.
Hoje a vida passa devagar, mas tenho pressa de viver. Quero que tudo dure ao máximo, mas não corro, eu mal consigo andar direito. Maldito corpo que não acompanha meu desejo de vida! É triste saber que estou decadente apenas porque esta estrutura de carne que aprisiona meu espírito se recusa a funcionar direito. Quero ser livre! Quero correr por onde eu puder, quero pular e dançar, mas sei que tudo isso é impossível.
Queria ser aquele homem que vi há pouco, quando olhei pela janela do hospital. Queria ter sua liberdade e até sua pressa. Queria me mover como ele...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Artesão das Imagens e Palavras

Hoje resolvi ambientar minha história em um mundo de fantasia que ainda irei criar. Como assim? Bem, este texto é sobre um ser que criei há algum tempo e que dá título ao conto de hoje. Aliás, é errado dizer que escrevi um conto, o que fiz foi apresentar este personagem e pedir a ele que falasse brevemente sobre sua história. Então, em vez de "conto", vamos dizer que meu personagem escreveu uma espécie de mini-autobiografia. Um pequena observação: esta não é a primeira aparição do personagem no blog, ele pode ser visto aqui e a cidade de Leandor também já existe, mas não um mundo onde eu possa colocá-la, ainda. Quem sabe eu a coloque em algum mundo já criado? Bom, ainda vou decidir isso. Questão de tempo. Por enquanto, fiquem com a biografia de: O Artesão das Imagens e Palavras. Bruno Leandro Não me tornei o Artesão das Imagens e Palavras à toa. Eu o fiz porque tinha um sonho. E um dom. Eu o fiz porque tive quem acreditasse em meu sonho. E em meu dom. Nasc...

Catadora de Latinhas

A história de hoje é parte real, parte inventada, parte devaneio. É real, porque já cansei de ver catadores de lata, papelão, lixo, etc. por aí. Também é real porque parte dela aconteceu com um amigo, mas o catador era homem. É inventada porque eu nunca passei pela situação que escrevi, mas por coisas parecidas. É devaneio porque tais situações me fazem pensar sobre muitas coisas. Espero que gostem da história e que ela também os faça refletir. A Moça das Latinhas Bruno Leandro Ipanema, fim de tarde, já quase noite. Os belos corpos já se levantaram da areia e os poucos que ainda restam, já não tão belos, admiram o mar. Cena de cinema. Mas algo destoa de tão linda cena: uma moça, já senhora, que vejo recolher latinhas na orla. Ela está aqui, ali, lá e acolá, passa e vem de um lugar ao outro, recolhendo o alumínio que os outros descartam. Não olho muito, pois nada tenho a ver com sua vida. Logo me aborreço de ficar parado e ando, sem rumo e sem destino. De repente, uma voz me para. ...

Este texto não foi escrito por IA

Meus dois dedos de prosa sobre o pesadelo do fim do mundo dos últimos tempos De uns tempos para cá, a IA tomou conta de tudo. É possível vermos desenhos, vídeos, “fotografias” e, até mesmo, textos e músicas feitos com tais “recursos”. As aspas se aplicam, pois estão deixando de ser recursos e substituindo, ainda que mal e porcamente, o trabalho humano. Sei que a IA soa como inimiga natural nos últimos tempos, bem mais do que uma simples Skynet do pavoroso futuro do tal Exterminador, mas ela não deveria ser vista dessa forma. O problema é que o dinheiro a tudo corrompe. E, com isso, vemos trabalhos artísticos de pessoas vivas sendo utilizados, sem permissão, para compor a criação dos mais diversos tipos de obras de arte que, mesmo desprovidas de alma, ainda se passam por algo realizável. Não nos enganemos, a IA aprende e, com o tempo, ficará mais e mais difícil distinguirmos o que foi criado por ela. E isso é muito ruim. Não sou contra saltos tecnológicos, nem vilanizo a intelig...